segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Alegoria da sinalização I - A placa do dogma

Imagine você seguindo por uma estrada. Você vê uma placa com uma seta: "tal destino, tal direção".

Se esta placa estiver errada, você se perde. Mas se esta placa for passível de estar errada? Objetivamente não se sabe se está certa ou errada. Pode estar certa, pode estar errada. O que fazer? Arriscar seguir a placa? Ou seguir uma das outras centenas de direções que a placa NÂO aponta? Afinal, se a placa está errada, quem garante que a estrada também está traçada certa?

A placa não pode absolutamente estar errada. A placa deve ser infalível em seu ensinamento.

Esta placa, meus amigos, são os dogmas, os ensinamentos da Igreja. No caminho cristão, centenas são as direções possíveis, mas apenas uma leva ao Pai. São os ensinamentos da Igreja a placa. Só há uma direção que chega ao destino apontado pela placa, a seta da placa não pode ser tal que mude, deve ser fixa, imóvel e imutável.

Quem poderia me acusar de abandonar meu livre-arbítrio para seguir a sinalização? Quem poderia me acusar de ser um guia cego de sinalização? E meu livre-arbítrio já não decidiu indo para tal destino? Por que seria acusado de ser submisso às placas, se elas me apontam os meios de chegar lá? Apenas um tolo não segue a sinalização.

domingo, 22 de novembro de 2009

Cristo-Rei: Jornadas Espirituais, ano 2

Este blog começou há um ano litúrgico atrás na solenidade de Cristo-Rei. Sobreviveu, apesar de minhas veleidades.

Neste um ano, quanta coisa aconteceu... e quanta coisa aconteceu comigo. Comecei a fazer uma estatística de posts e acessos, mas ai pensei que apenas uma estatística realmente importa, este escriba está mais próximo de Cristo que há um ano atrás?

Sim? Ótimo, então o Jornadas cumpriu sua função.

sábado, 21 de novembro de 2009

Nossa Igreja, na horizontal e na vertical, no espaço e no tempo

Quantas vezes em nosso mundinho acabamos projetando na Igreja católica nossa visão de mundo?

Só que a Igreja é universal no tempo e no espaço. Ela é muito maior que nós. Suprema obviedade a frase perante a razão fria, mas uma eterna tentação de cada fiel.

Durante a Romaria vi a Igreja ser universal no espaço na praça de São Pedro, com povos de muitas "nações, raças, povos e línguas". Durante a missa, enquanto respondia em português, uma senhora do meu lado respondia em alemão, e os diáconos em italiano. E atrás de mim havia umas americanas. Milagres da fé católica universal, que desfazem o dano de Babel. Ah, sim, durante a "Paz de Cristo" eu dizia "Pax Christi", porque nestas horas precisa da língua comum... Em São Pedro vi a horizontalidade do espaço da Igreja.

Aprendi que a igreja é universal no tempo nas catacumbas, onde tantos santos celebraram e muitos foram lá enterrados, inclusive alguns foram mortos ali mesmo. Além dos relatos dos primeiros cristãos que viviam lá, lembrei do relato de Santa Teresinha de sua própria visita. Na câmara dos papas, onde tantos pontífices foram enterrados, lembrei que São Sisto foi degolado, São Dâmaso venerou as relíquias outrora lá enterradas, Santa Teresinha os visitou e por último eu também passei por lá... e depois de mim quantos mais! Todos estes foram gotas individuais que desceram uma cachoeira, cada um com seu tempo determinado de passagem, mas juntas formando a cachoeira. Se as paredes falassem eu lhes perguntaria: Como era Sisto? Como era Dâmaso? Como era Teresinha? E como viram a mim? Nas Catacumbas vi a verticalidade do tempo da Igreja.

Como disse, todo católico é tentado a projetar no todo a medida de sua parte, isto é, nos mesmos, como um projetor que transforma numa grande tela a pequena imagem que passa diante de sua lâmpada. Sem querer, a Igreja universal na minha mente acaba virando uma projeção da "Idéia que o Ancião faz de Igreja". Isso não acontece com todos nós?

A Igreja não é nossa. Somos parte dela. Não adianta, por mais exercícios de esforço mental que tentemos, as colunas de Bernini não se deslocam um milímetro para a direita ou para a esquerda. Até o papa enfrenta resistência em levar a Igreja para onde ele como pastor espera que vá. Tem de gastar anos de pontificado forçando o leme para mudar o curso do barco. Tem de gritar um pouco até que o rebanho perceba a ordem e caminhe na direção que ele quer. E ainda haverá as ovelhas dissidentes que não irão. Da mesma maneira, indo do todo para as partes, este fenômeno acontece mesmo em nossas paróquias e também nas Ordens Religiosas. Um pároco não muda uma paróquia, um Superior não muda sua ordem tão facilmente. Quantas ordens foram diferentes do que o fundador queria exatamente em seus planos? E funcionaram muito bem, mesmo com as concessões do fundador ao seu plano original.

É uma causa de frustração imensa descobrirmos que a Igreja não é como pensávamos que deveria ser, tanto quanto um casamento que se desfaz porque os cônjuges alimentavam ilusões uns sobre os outros, não amando a pessoa real, mas a imagem que se desejava que ela fosse.

O segredo talvez seja ficar de olhos bem abertos para a realidade, e ter um desapego imenso de nossa vontade. É verdade que todo pedaço novo de "pickles" a ltera a conserva em que entra. E a conserva altera também o pedaço novo de "pickles". Será mais fácil o corpo de Cristo nos alterar que nós o alterarmos. Porque nos iludimos se a Igreja não é o que desejamos que fosse? Acaso nossa vontade ou nossa visão é tão importante e certeira assim? Não deixa de ser um certo orgulho humano. A Igreja é o que Cristo deseja que ela seja com os instrumentos que tem a mão, isto é, nós, as pedras vivas como disse São Pedro.

Uma boa política aqui talvez nem seja olhar para a cachoeira da qual somos gotas com tempo determinado para passar, e sim olhar o rio do qual a cachoeira da Igreja é gerada e no qual terminam todas as gotas. Não olhar para a Igreja, mas sim para seu noivo, Cristo. Cada homem é um caledoscópio de problemas que tomam toda nossa vida se analisado em particular. Quão terrível será analisar a coleção deles que é a Igreja? Sendo assim, saiamos de nossos desejos e particularidades, olhemos para Deus e seu desejo, e como maravilhosamente seu desígnio vai se completando. Em certo sentido, é o cumprimento do primeiro mandamento.

Abandonemos nossas tão carinhosamente guardadas opiniões de como tudo deveria ser, inclusive a Igreja, e nos percamos no oceano de amor que é Cristo, seu senhor e noivo.

* A primeira foto é a fachada de Santa Maria Maior (Maggiore). A segunda é o teto da nave da Igreja de Santo Inácio de Loyola. A terceira é uma placa sobre as Catacumbas de São Calisto.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lentes não mentem (A Grande Romaria)

A máquina fotográfica é verdadeiramente uma invenção maravilhosa. É uma máquina do tempo, ela congela um presente que vai virar passado para ser revisto no futuro. Santo Agostinho disse poeticamente que Deus era quem perseguia o passado. Ele não sabia das nossas fotografias. Um álbum de fotos vale por voltar no tempo. Mas neste caso em que o passado está tão próximo, a fotografia me faz contemplar o futuro que me aguarda.

Revendo as fotos, contemplo detalhes que no local com todo o cansaço físico, não contemplei. Mas também revela uma dolorosa realidade. A câmera faz fotos realmente grandes. Ao abrir na tela do micro, ele reduz, melhorando a qualidade a custa dos detalhes. Ao colocar em tamanho real, detalhes aparecem. Muitas vezes tirei auto-retratos, ou seja, minha cara fica em primeiro plano e na outra metade ficava a ruína. Achava isso muito humano, porque sempre a minha face ficava em primeiro lugar em relação a paisagem. Ao contrário das fotos de corpo inteiro, não era eu em tal lugar, mas eu com tal lugar ao fundo. Perspectiva difernte. Pois bem, nestas fotos, ao ampliá-las, via atrás de mim as belas ruínas marcadas pelo tempo. Mas também via em detalhes em mim as marcas do tempo... Olhos escavados e fundos, pele sem firmeza, cabelos brancos, muitos, muitos, e as rugas...

Tempo, tempo, tempo inclemente! Se atrás de mim estava algum prédio famoso, com a marca venerável dos dois milênios de história, vi claramente que o mesmo tempo que devorou os arcos, as colunas, as igrejas devorou também meu rosto, captado sem retoques pela fotografia! Aquele afresco perdeu a cor pelo tempo, meus cabelos perderam o negro pelo tempo. Rachaduras se abrem nas grandes pinturas, rugas vincam meu rosto. Os arcos romanos que sustentaram palácios cedem, o canto do meus músculos que sustentam meu sorriso também cedeu. Em ruínas o fundo, em ruínas eu que estou a frente. As grandes colunas e os frisos dos templos caíram e estão em pedaços no chão e na terra, um dia também cairei e meus ossos se espalharão pela terra. O que aconteceu com a pedra e a madeira acontecerá com minha carne e ossos. Mais alguns séculos e aqueles mármores perderão mais detalhes. Mais algumas décadas, fui embora.

E vendo meu rosto marcado tanto quanto os arcos e as colunas atrás deles, vejo que não sou a medida de todas as coisas e que forças muito maiores e irracionais giram em torno de mim prestes a me esmagarem. E que talvez a única coisa que me mantenha neste oásis que possa ter a ilusão de dominar algo seja uma força muito maior e racional que me leva na mão.

São frequentes no Jornadas um certo desespero filosófico com a passagem do tempo, muitas vezes raiando, confesso, uma desesperança nada cristã. Mas raia. É nesta angústia que meus olhos se voltam para o Eterno e Infinito, não só Infinito Tempo, mas o Infinito Amor que me criou e me mantém, este Infinito que me chamará junto a si quando chegar a hora dolorosa que como matéria temo tanto, quando o cântaro se quebrar na fonte e esta alma imortal se separar dolorosamente do corpo que aguardará no pó a ressurreição prometida.

Rastreando lá no fundo de mim as motivações que me levaram a começar a lamentar a passagem do tempo, cheguei a uma conclusão... eu diria um clique de luz do alto, uma Epifania, verdadeiramente a manifestação de Deus por uma iluminação. Sim, Senhor, agora compreendo claramente a tua lição. Confirmai estas conclusões e voltai para vosso servo vossa face de bondade.

Este blog não se chama "Jornadas Espirituais" a toa, não?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tudo ficou igual, só eu mudei (A Grande Romaria)

Decantando, decantando ainda a Romaria. Sim, esse assunto vai me ocupar muito tempo... talvez toda a vida. E muito também neste blog. Muitas moções, o tempo vai passar e ver o que é "palha seca espalhada e dispersada pelo vento" e o que está "fundado firme sobre a rocha".

E no mesmo dia enquanto estava embasbacado vendo os imensos apóstolos e cátedra de Pedro no Latrão, a cátedra de Pedro age com a constituição apostólica sobre os anglicanos. Ainda ei de a ler. Essa Igreja não pára. Estática mesmo é a colunata de Bernini, o coração do corpo de Cristo pulsa e retesa seus músculos para agir, como Davi girando sua funda. Girada pelo pastor, guiada por Deus. Assim é a Igreja católica.

Retoma a vida o seu fuso, e vejo que nada mudou. Nada. Só eu. E mudando eu, vejo que tudo mudou, ainda que nada tenha mudado.

Meu tendão ainda está doendo um pouco. A Romaria não foi em nada importante para ninguém, exceto para mim. O reino de Deus está dentro de vós. Estranham quando digo que a noite apenas dormi, e as mulheres que contemplei atentamente seus belos corpos eram feitas de mármore e deviam ter no mínimo 400 anos (as mais novinhas, as barrocas). Mal sabem que eu, tão apressado por visitar museus e passar pelas ruinas, gastava horas em igrejas contemplando embevecido uma "rodela branca" dentro de um hostensório. Entenderão? Nem conto. Mas foi justamente isso que me fez voltar cheio para casa! Que alegria quando ouvi que me disseram, vamos à casa do Senhor, e agora nossos pés já se detem, Jerusálem em tuas portas (Salmo 121)

Uma coisa ruim das viagens, talvez tenha até dito aqui no Jornadas, é que pausamos todos nossos problemas na perspectiva da fruição do momento turístico. Quando voltamos, olha eles ai. Porém esta aqui foi diferente. A verdadeira jornada aconteceu em espírito. Este foi mais longe que qualquer vôo transatlântico. Já andei muitos lugares em puro turismo. Voltei vazio, mesmo cheio de fotos, mesmo lembrando de prazeres passados. Porém a Grande Romaria... foi diferente. Deus sabe o momento que estou passando... Deus sabe a graça que clamei em cada igreja, diante de cada imagem. Ele sabe a dor que trazia comigo e que derramei numa terra já sulcada por tanta dor, tantos tumultos, tanta vanglória, tanto martírio, tantos assassinatos, tanto saque, tanta soberba, tanta ruína...

Ele sabe que mais pretensiosas que as outrora magníficas ruínas imperiais no Palatino eram as ruínas de minhas ambições destruídas pelos visigodos da realidade, quando um homem se esquece do sentido de sua existência e recebe o justo fruto de seus atos. Uma ruína visitava ruínas, e tentando entender como as romanas ficaram em ruínas, tentava compreender as ruínas que trazia em seu peito.

Não mudou nada, e sim mudei eu. Ou melhor, mudou-me Ele. E foi para isso que ele me tirou de casa, para que "em retiro" pelo movimento do corpo numa terra estranha pudesse me falar coisas novas e sublimes, mesmo sem palavras.

* Respectivamente, ruinas de Ostia Antica, um dos Foruns Imperiais com Mercado de Trajano ao fundo, ruína no Palatino (note a chuva!!!)

domingo, 15 de novembro de 2009

Meu São Tiago!!!

A Arte sacra é realmente algo que deve ser estimulado sempre, sempre, sempre. Nosso templos devem ser cobertos de obras de arte. Quando Deus ordenou fazerem o Tabernáculo e o Templo de Jerusalém exigiu que artistas fizessem as peças e imagens.

Este São Tiago Maior está na catedral de São João do Latrão (San Giovanni Laterano). Eu fiquei fascinado nele, estava bem a minha frente durante a missa e pude contemplá-lo longamente. Observem a expressão do rosto. Incrível, não?





Essa expressão em seu rosto... verdadeiramente heróica... incrível, incrível mesmo... de todas as imagens dos apóstolos que vi pelas basílicas, as do Latrão são as mais expressivas.

sábado, 14 de novembro de 2009

Bem Mal vindo ao lar


Parece ironia, mas exatamante uma semana depois (como o tempo passa!) de assitir missa no túmulo de São Pedro, fui assistir "celebração eucarística" no túmulo da liturgia, minha paróquia. Quanta ironia divina! A celebração hoje - sem padre - estava especialmente avacalhada, mais que a média. Pensei em escrever aqui o que vi, porém talve o melhor remédio seja o esquecimento. Melhor virar a página. Fiz minha comunhãozinha bem árida, levantei e fui embora. E eu que pensava em assitir uma piedosa e devota missa em ação de graças pela Grande Romaria... tsc, tsc, tsc... qual papa mesmo dos primeiros séculos disse Todas as igrejas devem celebrar como Roma? Clemente? Vitor? Gelásio? Leão? Não lembro. Sei que alguém deve estar dando coices no paraíso... porque eu já estou dando coices aqui na terra...

Esta foto é do lindíssimo São Sebastião de Bernini, junto ao túmulo do santo na igreja de mesmo nome sobre as catacumbas, na Via Apia Antiga. Sabe que as vezes cogitando na situação da Igreja brasileira me dá uma vontade de começar a cavar uma catacumba debaixo da minha casa? Mais algumas gerações de tanto desmazelo litúrgico e precisaremos delas novamente....