terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O problema não é a tradição, mas a sua prioridade

Os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição (...) Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos(...) ? Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas (...) Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição. (...) Anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes

São Marcos 7,3-4a.5a.6.8-9.13



Este evangelho me entristece quando penso nas seitas protestantes mais vitriólicas aplicando injustamente esta invectiva contra a tradição apostólica, tradição esta pela qual recebemos os mandamentos. Afinal, se não fosse a tradição (junto do magistério da Igreja), como creríamos na inspiração da Escritura?

Aqui, contudo, tratam-se de tradições digamos "devocionais" ou "boas práticas". Muitas vezes nós as colocamos em pedestais altos demais. Toda devoção, por ser uma boa prática, é opcional. Se for obrigatória, é mandamento, e já não é mais devoção.

A chave deste evangelho estão nos verbos "deixar" e "apegar": Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. Há dois movimentos errados, o primeiro é o mandamento sendo deixado, o segundo é se ater ao que não é o essencial. A "tradição humana" - ainda que muitas vezes boas (afinal, quem negará que é bom lavar as mãos e os copos?) - torna-se má ao tomar o lugar do mandamento. Prosseguindo o texto, Cristo demonstra como é mais importante ajudar os pais que dedicar coisas a Deus. Não que oferecer a Deus seja ruim! Muito pelo contrário! Cristo elogiou a oferta da viúva no Templo. Mas é ruim oferecer a Deus para deixar os pais na miséria. Uma boa prática, uma boa tradição que fora da ordem correta torna-se maligna. Anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes.

Um bom termômetro para nossas devoções e boas práticas é o seguinte: Abandonaríamo-las por uma ordem superior?. Exemplifico, quem nega que seja uma boa prática de piedade fazer jejum as sextas? Há quem goste muito desta boa prática. Mas se a Igreja proibisse o jejum, nós continuaríamos com ele? Se continuamos, mau sinal, porque a obediência vale mais que sacrifícios. Toda devoção, toda boa prática, não sendo mandamento, é acessória. Sendo acessória, pode ser abandonada. Justamente por ser acessória e não necessária nem suficiente para a salvação. Na riquíssima tradição da Igreja, quantas devoções não existem? Uma vida não é suficiente para conhecer todas, quanto mais praticá-las. Porém vivemos como bons cristãos sem praticar a grande maioria delas. Mas os mandamentos, ah, são sine qua non.

O problema não é a tradição, o problema é não saber dar a ela a devida prioridade. Portanto, continuemos com as tradições e boas práticas. Elas existem para nos auxiliar. Mas sempre tenhamos auto-crítica para não abandonarmos o obrigatório ficando com o acessório.

Basílica de Santa Maria do Trastevere, Roma


Alterei a barra superior de título do blog usando o friso da fachada da adorável Basílica de Santa Maria do Trastevere, com as fotos que tirara na Grande Romaria. Não estava, de fato, programada a visita a esta igreja, mas foi no dia em que o metrô romano estava de greve e tive de ir andando (e mancando) das Termas de Caracala até o museu do Vaticano. Como estava no Aventino, cortei caminho pelo bairro do "Trans-Tibre" (dai em italiano: Tras-Tevere) com suas adoráveis vielas cheias de cantinas que prometiam... pena que estava sem tempo de almoçar decentemente.

De qualquer forma, foram momentos de grande consolação nesta igreja. Lembro claramente de ter sentado cansado em um dos bancos, abraçado meu tornozelo esquerdo em brasas com as mãos e consagrá-lo à Nossa Senhora. Sim, leitor, depois de Trastevere doeu muito menos.

Partilho algumas fotos para matar a saudade.

Particularmente acho muito charmosas estas plaquinhas romanas


A fachada da igreja


A fachada em detalhe. Note a pintura desgastada em cima... tempo, tão inclemente...


A fonte "octangular". Diz o guia turístico que a noite a fonte é lugar de balada e paquera dos jovens... bah... vai se acreditar em guias e aventuras romãnticas em fontes barrocas


Como boa basílica jubilar: Sim, esta é a porta do Senhor, por ela só os justos entrarão! - Salmo 117


A entrada da igreja, placas votivas de promessas cumpridas


Em latim, porque a Igreja católica é realmente muito velha. Minha fé veio antes da minha língua


Enquanto isso, no Brasil, nossas igrejas mais novas parecem galpões


Tragam o barroco de volta!!! Isso que é um templo para cultuar a Deus convenientemente


Olhando no sentido da entrada, para o lado direito

Ah, não permita Deus que eu morra sem que volte para Roma!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Confesse sua confiança

Tu (...) dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio.

Salmo 90,2

Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?

São João 21,15


Por que um ser omnisciente deseja que digamos algo que ele já sabe? Que mistério é este, que faz Deus desejar que proclamemos nossa fé e nosso amor? Lembra aqueles casais apaixonados que não cessam de dizer "Eu te amo" beirando a pieguisse... ah, mas tão romântico! E não se cansam de ouvir mutuamente as juras de amor... as confissões de amor...

Confessar é uma palavra de duplo sentido. Tanto pode ser a revelação de um segredo quanto a proclamação de algo. No primeiro sentido, serve de sinônimo para o sacramento da penitência. Já no último sentido, os grandes santos que não são mártires nem teólogos, mas zelosos pregadores da palavra de Deus são os confessores. Eles confessaram ao mundo a fé cristã. As famosas Confissões de Santo Agostinho nem tanto narram a descrição de suas esbórnias de juventude, mas fazem a proclamação pública da grandeza de Deus em sua vida.

Deus pede a confissão da fé. O Salmo 90 é todo dedicado à confiança, mas logo no início ele começa: dize ao Senhor. Da mesma maneira, Cristo pede uma confissão de Pedro, que replica Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo! Que Deus sabe, ele sabe. Mas deseja ouvir a confissão.

Tão grandes exemplos da Escritura pedem nossa contrapartida. Confessemos nossa confiança. Deus quer ouvir de nossa boca. Ele até sabe o tamanho e a extensão, mas quer ouvi-la, ainda que Deus ouça até o que não é dito. Confessemos sem vergonha ao Altíssimo nosso amor.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Depois de ver o video da Campanha filo-marxista da "Fraternidade(???)" 2010

Uma imagem vale por mil palavras

CNBB, quando teremos uma Campanha da Fraternidade com tema "Jejum e Penitência"?

Não podeis servir a Deus e ao marxismo!!!

***


Algum bom católico pode me invectivar - e com razão - lembrando que todos os grandes santos do passado são unânimes ao condenar o apego as riquezas e exaltarem a caridade. Assino embaixo. Como podemos esquecer os exemplos de desapego de Inácio de Loyola, Francisco de Assis, Bento de Núrsia, dentre tantos? Mas não foi esta abordagem que deu o texto base da CF e seus vídeos, exalando o submarxismo fétido da Teologia da Libertação por todos os poros. Vejam por si mesmos. E aos pés da cruz na Sexta-feira Santa contemplemos mais o dano invisível feito à Igreja católica no Brasil contribuindo para sua erradicação da outrora terra de Santa Cruz. A Igreja é indestrutível, mas a História mostra que ela desapareceu implacavelmente de muitos lugares. O que é feito da diocese de Hipona? E de Cartago? E das sete dioceses do Apocalipse?

Revesti-vos de sacos, sacerdotes, e batei no peito! Lamentai-vos, ministros do altar! Vinde, passai a noite vestidos de saco, servos de meu Deus! Publicai o jejum, convocai a assembléia, reuni os anciãos e toda a população no templo do Senhor, vosso Deus, e clamai ao Senhor!

Joel 1,13-15a


Davi penitente no Horto das Oliveiras ou "Aqui se faz, mas aqui também se paga"

Natã (após o adultério com Batsabá, disse a Davi): jamais se afastará a espada de tua casa, porque me desprezaste, tomando a mulher de Urias, o hiteu, para fazer dela a tua esposa. Eis o que diz o Senhor: vou fazer com que se levantem contra ti males vindos de tua própria casa.

(...) E (o filho de Davi,) Absalão, ajuntava: Oh, quem me dera ser juiz desta terra! Todo o que tivesse um litígio ou uma questão e viesse ter comigo, eu lhe faria justiça. E se alguém se aproximava para se prostrar diante dele, estendia a mão, detinha-o e beijava-o. Assim fazia Absalão com todos os israelitas que vinham procurar o rei para qualquer julgamento. E desse modo conquistou os corações dos israelitas. Quatro anos se passaram. (...) Absalão enviou emissários secretos a todas as tribos de Israel, com esta mensagem: Quando ouvirdes o som da trombeta, dizei: Absalão é rei em Hebron!

Vieram então anunciar a Davi: Os israelitas aderem a Absalão! Davi disse então a todos os que estavam com ele em Jerusalém: Vamos, fujamos, porque não podemos de outro modo escapar a Absalão! Apressai-vos e parti, não suceda que ele nos surpreenda de repente, e nos inflija a ruína, passando a cidade ao fio da espada. Os servos do rei disseram-lhe: Faça-se como ordenar o rei, meu senhor; somos teus servos. O rei partiu a pé com toda a sua família, mas deixou dez concubinas para guardar o palácio. O rei saiu, pois, a pé com todos os seus servos, e se detiveram na última casa. Todo o seu exército desfilava ao seu lado; os cereteus, os feleteus e todos os geteus, em número de seiscentos homens que o tinham seguido desde Get, todos marchavam diante do rei. (...) E estando o rei junto do Cedron, enquanto desfilava o povo diante dele, tomando o caminho da oliveira do deserto, toda a terra chorava em alta voz (...) Davi subiu chorando o monte das Oliveiras, cabeça coberta e descalço. Todo o povo que o acompanhava subia também chorando, com a cabeça coberta

(...) Quando o rei chegou a Baurim, apareceu um homem da família da casa de Saul, chamado Semei, filho de Gera, o qual ia proferindo maldições enquanto andava. Atirava pedras contra o rei Davi e contra todos os seus servos, embora todo o exército e todos os guerreiros valentes se encontrassem à direita e à esquerda do rei. E o amaldiçoava, dizendo: Vai-te, vai-te embora, homem sanguinário e celerado. O Senhor faz cair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, cujo trono usurpaste; o Senhor entregou o reino ao teu filho Absalão. Eis-te oprimido de males, homem sanguinário que és! Então Abisai, filho de Sarvia, disse ao rei: Por que insulta esse cão morto ao rei, meu senhor? Deixa-me passar, vou cortar-lhe a cabeça. Que nos importa, filho de Sarvia?, respondeu Davi. Deixa-o amaldiçoar. Se o Senhor lhe ordenou que me amaldiçoasse, quem poderia dizer-lhe: por que fazes isso? E Davi disse a Abisai e à sua gente: Vede: se meu filho, fruto de minhas entranhas, conspira contra a minha vida, quanto mais agora esse benjaminita? Deixai-o amaldiçoar, se o Senhor lho ordenou. Talvez o Senhor considere a minha aflição e me dê agora bens por esses ultrajes. Davi e seus homens retomaram o seu caminho, mas Semei ia ao longo da montanha, ao lado dele, vomitando injúrias, atirando-lhe pedras e espalhando poeira pelo ar. O rei e toda a sua tropa chegaram extenuados ao monte, onde descansaram.


II Samuel 12,10-11;15.4-7a.10,13-18.23.30;16,5-14


Deus perdoa o pecado. Mas as conseqüências do pecado devem ser pagas. Depois da morte, a reparação da punição temporal se dá no purgatório. Porém não raro pagamos aqui na terra mesmo as cabeçadas. A conseqüência do pecado é a morte, já dizia o apóstolo. Não há o que escapar. Não necessariamente da morte, mas da mortificação como reparação do pecado.

Aqui se faz, aqui se paga, diz o ditado. Davi tinha em mente as palavras de Natã. O adultério com Betsabá e o homicídio de Urias não encerraram com um belo e inspirado Miserere (Salmo 50). A espada rasgou a família de Davi. Primeiro a morte do impudico Amnon, depois a guerra civil de Absalão. Davi foge de Jerusalém como um penitente.

Davi fugir para o Monte das Oliveiras é cheio de significados. Séculos depois, o descendente de Davi naquele horto também se preparava angustiado para receber em si a punição do pecado, não os dele mesmo, mas de todos os filhos de Adão nascidos e por nascer. O sacrifício de Cristo, contudo, permite-nos ter nossos pecados perdoados, mas ainda temos que reparar suas conseqüências, seja pela mortificação em vida ou no purgatório. Deus seria injusto nos perdoasse mas não nos deixasse arcar com as conseqüências. Como a Davi. Perdoado de seu adultério e homicídio, viu a morte na própria família e a divisão no reino.


O rei ia como um penitente, descalço, despido de seus adornos. Davi, que era profeta e poeta, sabia que tudo aquilo era a justa paga de seus pecados. E era justo que fosse xingado também, suspeitando que era insultado a mando de Deus. Cheio de simbolismos, Davi penitente poupou o ofensor da fúria de seus soldados, subindo o monte para evitar ser preso. Séculos depois, seu filho, descendo preso o monte, para a penitência máxima da paixão, também não enviou seus soldados para punirem os insultos dos maus.

Justa era a punição que recebia Davi, e porque nas suas própias palavras É melhor cair nas mãos de Deus que nas mãos dos homens. Antecipemo-nos à justa punição de nossos pecados, especialmente na quaresma que vem ai. Como é importante a penitência, mortificação e da busca incessante de indulgências!! Cristo garantiu o perdão de nossas faltas, mas quem garantirá a reparação delas somos nós.

Há males que vem para o bem, diz o ditado. Plutarco narra a história de um soldado que foi ferido na guerra pela espada do inimigo, a espada atravessou um nódulo de câncer de outra forma que teria o matado. A espada do inimigo querendo nos matar as vezes faz mais bem que mal. Assim também através da penitência, o sofrimento que nos aflige, se associado à cruz, vem purificando-nos dos pecados e dos vícios e transformando o mal em bem. Quem bem maior que o perdão dos pecados? Antecipemo-nos ao julgamento pagando já nossas dívidas.

Penitência. Cristo, os santos, as aparições da virgem não cessam de ensinar. Penitência. O exemplo de Davi é eloquente. Penitência.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Idolatria e falta de confiança

Conservei a confiança ainda quando podia dizer: Em verdade sou extremamente infeliz.
Salmo 115


É de se surpreender como o povo antes do Exílio na Babilônia era tão voltado à idolatria, apesar de sucessivamente ver a estrondosa intervenção divina. Mesmo aos pés do Monte Sinai, literalmente diante da glória de Deus, pecaram. Confesso, leitor, que acho o comportamento dos antigos hebreus mais estúpido que pecador. Afinal, a manifestação de Deus estava ali na frente deles diante da montanha, porque pecar literalmente diante de sua face?

Em nossas vidas também Deus faz sucessivas intervenções. Ainda assim nos afastamos, como que não confiássemos. E nos afastamos, esfriando a vida espiritual, sucumbindo passivamente à desolação, processo que pode levar ao afastamento da Igreja e mais tarde apostasia.

Fabricaram um bezerro de ouro no sopé do Horeb, e adoraram um ídolo de ouro fundido.
Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno.
Esqueceram a Deus que os salvara, que obrara prodígios no Egito,

Salmo 105


Não trocamos Deus por um bezerro de ouro, não mais. Porém trocamos o Altíssimo pelo sufoco das preocupações. Sei que analisando friamente podemos achar uma troca ruim, como julgamos tolo o comportamento dos israelitas: Como se afastar de Deus por nada? Pois é. Mas assim acontece. Falta de confiança em Deus. Também este é um caminho do abandono. Sim, é uma má escolha, mas aqui lidamos talvez com uma manifestação da concupiscência da carne, embaralhando nossa razão, deprimindo nossa fé e fazendo que nos afastemos da cura de nossos males.

Não percamos a confiança em Deus! Adão se escondeu de Deus depois de pecar. Conseqüência terrível do pecado original, ser sempre tentado a perder a confiança em Deus. A concupiscência transtorna as faculdades morais do homem (CIC 2515) Quem tem a fé tão forte que nunca passe por isto? Nosso Senhor disse que se tivéssemos a fé do tamanho de uma semente de mostarda, moveríamos montanhas. A fé traz a confiança. Se tivessemos a confiança assim, com uma pá levaríamos a montanha para o mar nós mesmos, não importa as viagens.

Senhor, como os antigos israelitas, sou um homem de cabeça dura. Todo dia tu te desvelas em carinho e proteção por mim. Tal e qual Jerusalém toda cercada de montanhas, assim Deus cerca seu povo de carinho e proteção - Salmo 124. Ainda assim não tenho confiança em ti. Ainda assim não me abandono em ti. Ainda assim preocupo-me com riquezas e status, como se o Mamon do dinheiro e bezerro de ouro do poder fossem me dar segurança. Como os apóstolos, sei que estás na barca, mas em minha tolice, julgo que não te importa que nós pereçamos? Sucumbo tolamente ao desespero e a angústia, como se não soubesse que todos os cabelos de minha cabeça estão contados e que Deus vai deixar esperando os que dia e noite clamam por ele? Senhor, dai-me sempre a graça da confiança em ti e a paciência para suportar os males enquanto espero a tua intervenção. O Senhor não vai deixar permanecer por muito tempo, o domínio dos malvados sobre a sorte dos seus justos (Sl 124)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Lutando contra a desolação

Uma vez que no tempo de desolação não devemos mudar as resoluções anteriores, aproveita muito reagir intensamente contra a mesma desolação, por exemplo insistindo mais na oração, na meditação, em examinar-se muito e em alargar-nos nalgum modo conveniente de fazer penitência. O que está em desolação considere como o Senhor o deixou em prova, nas suas potências naturais, para que resista às várias agitações e tentações do inimigo; pois pode [fazê-lo] com o auxílio divino, que sempre lhe fica, ainda que o não sinta claramente; porque o Senhor lhe subtraiu o seu muito fervor, o grande amor e a graça intensa, ficando-lhe contudo graça suficiente para a salvação eterna. O que está em desolação trabalhe por manter-se na paciência que é contrária às vexações que lhe advêm, e pense que será depressa consolado, se puser as diligências contra essa desolação, (...) É próprio do Inimigo enfraquecer e perder ânimo, dando em fuga com suas tentações, quando a pessoa que se exercita nas coisas espirituais enfrenta, sem medo, as tentações do inimigo, fazendo o diametralmente oposto. E, pelo contrário, se a pessoa que se exercita começa a ter temor e a perder ânimo em sofrer as tentações, não há besta tão feroz sobre a face da terra, como o inimigo da natureza humana, na prossecução de sua perversa intenção, nem com uma tão grande malícia.(...)
O diabo comporta-se também como um chefe militar para vencer e roubar o que deseja. Porque, assim como um capitão e chefe dum exército, em campanha, depois de assentar arraiais e examinar as forças ou a disposição dum castelo, o combate pela parte mais fraca, da mesma maneira o inimigo da natureza humana, fazendo a sua ronda, examina todas as nossas virtudes teologais, cardiais e morais, e por onde nos acha mais fracos e mais necessitados para a nossa salvação eterna, por aí nos ataca e procura tomar-nos.


Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, 319-321.325


A desolação é um estado muito cruel. Todos caem nela de vez em quando, mas olhando minha vida, compreendo quantas desgraças me ocorreram quando sucumbi a ela. Por desolação não se entende só depressão. Pode-se estar desolado e euforico. A desolação é uma sensação de distância de Deus e afastamento espiritual, conforme já disuctido no post Da Consolação e da Desolação.

A defesa passiva contra a desolação é não abandonar os bons propósitos. Mas temos que tomar a ofensiva tambem. Não basta abaixar a cabeça e dizer Estou desolado e ficar parado esperando como alguém que vai para o acostamento num dia de neblina. Se o general Satanás está rondando a cidadela do nosso coração para atacar, nada melhor que uma investida dos sitiados sem os atacantes esperarem, colocando-os em fuga. Sufocar em desolação é um cerco lento e cruel, mais cedo ou mais tarde se capitula. Nada melhor que atacar de volta as hostes infernais com penitência e oração.