Os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição (...) Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos(...) ? Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas (...) Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição. (...) Anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes
São Marcos 7,3-4a.5a.6.8-9.13
Este evangelho me entristece quando penso nas seitas protestantes mais vitriólicas aplicando injustamente esta invectiva contra a tradição apostólica, tradição esta pela qual recebemos os mandamentos. Afinal, se não fosse a tradição (junto do magistério da Igreja), como creríamos na inspiração da Escritura?
Aqui, contudo, tratam-se de tradições digamos "devocionais" ou "boas práticas". Muitas vezes nós as colocamos em pedestais altos demais. Toda devoção, por ser uma boa prática, é opcional. Se for obrigatória, é mandamento, e já não é mais devoção.
A chave deste evangelho estão nos verbos "deixar" e "apegar": Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. Há dois movimentos errados, o primeiro é o mandamento sendo deixado, o segundo é se ater ao que não é o essencial. A "tradição humana" - ainda que muitas vezes boas (afinal, quem negará que é bom lavar as mãos e os copos?) - torna-se má ao tomar o lugar do mandamento. Prosseguindo o texto, Cristo demonstra como é mais importante ajudar os pais que dedicar coisas a Deus. Não que oferecer a Deus seja ruim! Muito pelo contrário! Cristo elogiou a oferta da viúva no Templo. Mas é ruim oferecer a Deus para deixar os pais na miséria. Uma boa prática, uma boa tradição que fora da ordem correta torna-se maligna. Anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes.
Um bom termômetro para nossas devoções e boas práticas é o seguinte: Abandonaríamo-las por uma ordem superior?. Exemplifico, quem nega que seja uma boa prática de piedade fazer jejum as sextas? Há quem goste muito desta boa prática. Mas se a Igreja proibisse o jejum, nós continuaríamos com ele? Se continuamos, mau sinal, porque a obediência vale mais que sacrifícios. Toda devoção, toda boa prática, não sendo mandamento, é acessória. Sendo acessória, pode ser abandonada. Justamente por ser acessória e não necessária nem suficiente para a salvação. Na riquíssima tradição da Igreja, quantas devoções não existem? Uma vida não é suficiente para conhecer todas, quanto mais praticá-las. Porém vivemos como bons cristãos sem praticar a grande maioria delas. Mas os mandamentos, ah, são sine qua non.
O problema não é a tradição, o problema é não saber dar a ela a devida prioridade. Portanto, continuemos com as tradições e boas práticas. Elas existem para nos auxiliar. Mas sempre tenhamos auto-crítica para não abandonarmos o obrigatório ficando com o acessório.


















